Thursday, August 19, 2010
"Eu sou o samba. Vocês me conhecem 2ª edição" - 1º encontro - resenha pós-evento
Santo André, que um dia já foi o lar de Adoniran Barbosa, vem cumprindo importante papel na defesa do samba. Carioca, baiano ou paulista, o samba brasileiro encontrou um importante bastião de preservação na Casa da Palavra, espaço situado na Praça do Carmo, localidade incrustada no centro da cidade que faz parte da região metropolitana de São Paulo.
Se em 2009, os quatro encontros do Projeto Eu sou o samba. Você me conhecem?, promovidos pelo Departamento de Lazer e Recreação, da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer da Prefeitura de Santo André serviram para dar início a esta importante ação cultural, o ano de 2010 começa mantendo acesa a chama do samba, levantando alto a bandeira da mais importante expressão cultural do povo brasileiro.
O tema do primeiro encontro de 2010, realizado no dia 8 de maio, foi ‘Samba paulista’ e contou com a ilustre presença de Renato Dias, fundador e integrante do Kolombolo Diá Piratininga, agremiação que faz um trabalho de resgate, valorização e divulgação do samba paulista em sua essência original - que por décadas ficou obscurecido, deturpado e quase extinto. Além dele também estiveram presentes a rapaziada do No pé da raiz, núcleo de sambistas da própria cidade de Santo André, que, assim como oKolombolo Diá Piratininga, também pesquisam e tocam o samba paulista em suas rodas de samba. Mediando o encontro estava eu.
Renato Dias falou para os presentes sobre diversos aspectos do samba paulista e algumas interessantes passagens históricas deste estilo musical que é muito mais do que um simples ritmo. Ele falou, por exemplo, sobre o encontro dos sambistas da capital e do interior em Pirapora do Bom Jesus, esta apenas uma das histórias que fazem parte do folclore do samba paulista. Era lá - nesta festa religiosa - que, longe do poder clerical e oficial, os sambistas trocavam experiências e sambas. Era tempo do tambu, zabumba e chocalhos com tampinhas de garrafa, hoje substituídos pelos instrumentos mais utilizados no samba carioca como, por exemplo, o surdo e o tamborim.
Buscando cativar os presentes com os aspectos sociais, antropológicos e musicais da linhagem paulista do ritmo que se moldou à sua maneira aqui em nossas terras, Renato chamou a atenção para a importância dos sambistas que residem em São Paulo pesquisarem e valorizarem nosso samba feito aqui, na Piratininga. Hoje, no alvorecer da década de 10 do século XXI, grandes lendas do samba da Paulicéia como Carlão do Peruche, Seu Nenê da Vila Matilde, Toniquinho Batuqueiro e Tio Mario, ainda permanecem na ativa - todos com mais de 80 anos. São lendas do samba de São Paulo que precisam ser louvados e suas histórias, registradas.
A cada explanação, abria-se espaço para os sambistas do No pé da raiz interpretarem sambas do Vai-Vai, Grupo Barra Funda (que mais tarde daria origem ao Camisa Verde e Branco), Nenê da Vila Matilde - além de músicas de Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini e outros monstros sagrados da Paulicéia. Ilustrando todo esse encontro, vários discos e livros sobre o samba paulista, trazidos do meu acervo particular ficaram expostos numa mesa, para que os presentes pudessem folhear e - mesmo que por um curto espaço de tempo - aprender um pouco.
Neste dia deu-se um importante passo para que o samba feito aqui em terras paulistas possa voltar a ter seu espaço entre os próprios sambistas de São Paulo, hoje mais identificados com a linhagem de Samba de Terreiro das Escolas de Samba do Rio. Afinal, Geraldo Filme já dizia e afirmava categoricamente sempre que questionado sobre o valor do samba daqui: paulista também faz samba, paulista também é bamba.
André Carvalho
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